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Assinala-se hoje, 15 de novembro, o Dia Mundial da Doença Pulmonar Obstrutiva Crónica, organizado pela “Global Initiative for Chronic Obstructive Lung Disease”. O Hospital de Braga associa-se à efeméride com uma ação de deteção precoce.

José Carlos Ferreira
15 Nov 2017

A Doença Pulmonar Obstrutiva Crónica (DPOC) é a quarta maior causa de morte em todo o mundo e, segundo os especialistas, acredita-se que em 2030 ela passe a ser a terceira causa de morte.

Segundo Lurdes Ferreira, médica do Serviço de Pneumologia do Hospital de Braga, esta é uma doença silenciosa, no sentido em que os sintomas, não são devidamente valorizados.

«Começa muitas vezes com uma tosse, ter expetoração matinal. Em muitos casos, os doentes acham que isso já é normal. Como está muito associado ao tabagismo, uma vez que os fumadores começam a ter tosse e catarro, acham que é normal, que é do tabaco. Isto já são, muitas vezes, os primeiros sintomas da doença», salienta.

Noutros doentes, acrescenta a médica, a DPOC manifesta-se mais por uma falta de ar, que em termos científicos é a dispneia. É uma falta de ar, inicialmente, para grandes esforços, como seja subir escadas, em que na maior parte das vezes as pessoas atribuem à idade, porque a doença manifesta-se a partir dos 40 anos. As pessoas acham que é do envelhecimento e não valorizam os sintomas e, por isso, não se queixam ao seu médico de família, não havendo-se, assim, um diagnóstico da doença.

Ana Marques Pinheiro

A DPOC, esclarece Lurdes Ferreira, carateriza-se por uma limitação do fluxo de ar e deteta-se fazendo um simples exame, onde se mede o ar que entra e o ar que sai dos pulmões. «É essa relação que os doentes com DPOC têm alterada. É uma obstrução que, habitualmente, não é reversível. A asma, por exemplo, quando fazemos um broncodilatador o doente reverte essa obstrução. A DPOC não é reversível. Isso faz o diagnóstico da doença. Um doente que tem sintomas e que tem uma obstrução brônquica não reversível faz o dignóstico de Doença Pulmonar Obstrutiva Crónica», disse.

Sendo esta uma doença crónica, isso quer dizer que não tem uma cura. No entanto, sublinha Lurdes Ferreira, esta é uma doença que se trata.

«E o tratamento fundamental é evitar o fator que desencadeou a doença», ou seja, «se for o tabagismo é fundamental deixar de fumar». «Continuar a fumar vai agravar necessariamente a função respiratória», acrescenta.

Depois, o tratamento passa também pela prevenção de outros fatores que agravam a Doença Pulmonar Obstrutiva Crónica, nomeadamente as infeções respiratórias, o que se faz com as devidas vacinas.

E, no que diz respeito ao tratamento da DPOC em si, ele «baseia-se num tratamento farmacológico, que é à base de broncodilatadores inaladores, em que o doente inala o medicamento que vai dilatar os brônquios».

A par disto, há também um tratamento não farmacológico, que é à chamada reabilitação respiratória.

«Estes doentes têm a dispneia de esforço, ou seja, não conseguem fazer grande atividade física. E isto vai agravando e causa limitação até nas atividades básicas do quotidiano. Portanto, a reabilitação respiratória permite ao doente exercitar a respiração de uma forma controlada para melhorar e, no fundo, evitar o ciclo vicioso que é: o doente tem falta de ar, faz menos esforços, se faz menos esforços, vai ter mais falta de ar e, vai desenvolver menos a sua capacidade muscular. Portanto, a reabilitação é fundamental no tratamento chamado não farmacológico. No fundo, é um treino do músculos respiratórios, é ensinar o doente a respirar melhor e ensiná-lo a saber lidar com a sua doença», acrescenta Lurdes Ferreira, do Serviço de Pneumologia do Hospital de Braga.

 

«Temos que controlar esta doença»

A doença não nos pode controlar, na verdade é o doente que tem de controlar a Doença Pulmonar Obstrutiva Crónica.

É com esta convicção que Udeli Ribeiro enfrenta todos os dias depois de lhe ter sido diagnosticado a DPOC.

Segundo recordou, foi quando chegou a Portugal que um médico amigo lhe chamou a atenção para a probabilidade de ter um efizema. «Eu não acreditei» e, apesar de alguns exames, disse não ter dado nenhuma importância à situação.

«Em 2002, eu, que sou uma pessoa muito ativa, que não consigo ficar parada, comecei a sentir muito cansaço. Não tinha tosse, mas sentia falta de ar. Fui ao médico e pedi-lhe para me encaminhar para a Pneumologia do Hospital de São Marcos. Eu não esperei muito, na altura até foi rápido. Foi quando fui consultada pela doutora Lurdes Ferreira, que foi a minha salvação», recorda Udeli Ribeiro.

Esta doente é seguida no Hospital de Braga há já bastante tempo, mais concretamente, desde 2004, e, para além do tratamento farmacológico, também faz o tratamento não farmacológico, a reabilitação, «que é um santo remédio», garante. «Nós mudamos em todos os sentidos. Esta é uma doença triste. Eu tenho uma irmã que já está numa fase mais avançada, já está numa cadeira de rodas. Mas, eu não quero ficar assim e, por isso, sigo todas as recomendações da doutora Lurdes Ferreira. Aliás, só posso agradecer porque a minha qualidade de vida aumentou», disse.

No vocabulário de Udeli Ribeiro não existe a palavra impossível. Quando lhe propõem uma atividade que sabe à partida que vai exigir um pouco mais de esforço, nunca diz que não consegue. «Eu digo sempre, vou tentar fazer», porque, «se eu for viver com este medo, eu não vou viver», salienta.

O segredo, acrescenta, é fazer a medicação correta, seguir as recomendações clínicas e controlar sempre a doença sem deixar que seja ela a controlar a vida.

Hoje, depois de tudo o que já passou, quando vê jovens a fumar não consegue evitar de lhes chamar a atenção para os perigos que estão a correr e para o mal que estão a fazer à sua saúde.



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