Espaço do Diário do Minho

O “poder” da simpatia
Narciso Mendes

Em cerimónia, que já lá vai, de entrega dos “Guerreiros de Ouro”, no Theatro Circo de Braga, na qual esteve presente o atual Presidente da República – e braguista ferrenho – Marcelo Rebelo de Sousa, o representante de uma figura galardoada, chamou-o de Professor Marcelo Caetano. Ao que lhe segredaram ao ouvido o nome correto, acabando por retificar a situação, sem que o visado tivesse esboçado qualquer ar de repugnância, antes pelo contrário sorriu com a simpatia que lhe é peculiar.

Peculiaridade que é exaltada por uma sua ex-aluna universitária – numa revista semanal – em que fiquei a saber que raros, ou nenhuns, alunos faltavam às aulas da cadeira de Direito Constitucional por ele lecionada. Pois todos se rendiam, fascinados, à inteligência, ao dom de palavra e à simpatia com que debitava a matéria, sem precisar de livros ou notas, apanágio dos demais docentes. O que deixava qualquer aluno, mesmo que não simpatizasse com a matéria da cadeira, encantado.

Ora, a gafe cometida na gala e o artigo da ex-aluna do nosso P.R. relativo à simpatia humana – bem como à disponibilidade de afeto para com todos aqueles que com ele se cruzam – levou-me a correr o risco de recuar ao tempo em que Marcelo Caetano, como Presidente do Conselho, foi em viagem visitar as colónias portuguesas de então e o Brasil, cujo relato extraí da revista cultural “Cartaz” de 1968:

«Ninguém pode negar que o senhor Professor Marcelo Caetano foi, para estes povos irmãos, o grande e infatigável mensageiro da simpatia e cordialidade. Ninguém de boa-fé lhe nega o altíssimo serviço prestado ao país e às comunidades lusófonas de além-mar, a quem levou um forte abraço continental. O poder da simpatia é, não haja dúvida, o poder do milagre. O poder da simpatia brota naturalmente do coração dos homens, mas é também um ato natural da sua inteligência. E o seu sorriso aberto e franco tem a grandeza das coisas simples, mostra-nos que o poder da simpatia humana – como o poder da fé – consegue remover montanhas de obstáculos, provando-o ao abrir uma “nova era” no velho Portugal».

“Nova era”, essa, que iria criar suficiente abertura capaz de facilitar a revolução em 25 de Abril de 1974, rumo à democracia e à liberdade. E ainda hoje, volvidos que foram mais de 40 anos, não se diz de M. Caetano o que se diz de Salazar, dado ter tido uma visão mais liberal, embora modesta, do país. Pena foi ter optado por manter as práticas do regime herdadas do seu antecessor, às quais mudara, simplesmente, os nomes. De resto, quanto a teres e haveres, foi o que se sabe: valeram-lhe – no exílio – a sua filha Ana Maria e as aulas que dava no Brasil.

Não é que ele não soubesse quem atentava contra o “marcelismo”. Sabia-o e muito bem. Alguns tinham sido seus discípulos, universitários, a quem ministrou conhecimentos, preparando-os para o futuro. Não é por acaso que, pós revolução, tivemos na nossa plêiade política gente ligada ao aparelho do Estado Novo, integrada em partidos políticos. Só que muitos se foram deixando inebriar pelas matreirices e corrupção. Até Mário Soares, ante a roubalheira instalada, chegou a dizer que figuras como M. Caetano tiveram a virtude de serem sérios. E o que diria ele, agora, do desrespeito para com os que enobreceram a pátria, autorizando – a troco de dinheiro – “fantochadas” no Panteão Nacional?

Ressalve-se o facto de existir nesta república, no meio de uns quantos politiqueiros sem fé, um Presidente católico repleto de valores, informal, caloroso, popular e talhado para lidar com esta “geringonçada”. Um homem que vibra com a política, sem perder de vista o seu lugar. Basta vermos como interage com o povo e com as figuras de alto prestígio internacional, imediatamente rendidas ao seu poder de simpatia e de conhecimento das matérias deste mundo global. Sendo traço comum às duas personagens a simplicidade.



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